quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Partitura da alvorada

Quatro horas e trinta e nove minutos. A luz matutina já esforça-se para quebrar a noite. O discreto lençol negro torna-se levemente azulado, permitindo o reaparecimento de objetos que antes misturavam-se ao breu. A janela do ônibus torna-se uma tela onde é projetada a dança dos reaparecidos postes, que dançam exibindo os seus constantes fios. Erro meu. Parece uma dança, mas trata-se de uma partitura. Cinco fios. Não conheço muito de notação musical, mas tenho a certeza de que a janela me mostra uma pauta. Não faço idéia de qual seja a clave. Mas sigo as linhas com os olhos tentando identificar as notas. Aonde estão as notas? Sigo a pauta. Estou hipnotizado.
Compasso 3/4. Pensamentos distantes e vagos me aparecem em semibreves.
Compasso 4/4. Pensamentos mais constantes e mais fixos no formato de colcheias
Compasso 6/8. Perco-me nos meus pensamentos, misturo a realidade com todos os sonhos , expressos através de semifusas.
Sono.
Pausa.1/64.

Silêncio.

domingo, 15 de novembro de 2009

Alívio

Ainda bem que os trajetos não são iguais aos trilhos.
Ainda bem que dormentes não separam os meus pés.
Ainda bem que os passos não precisam ser paralelos.
Ainda bem que as minhas ferrovias se estendem em infinitos sentidos e direções.
Ainda bem que não sou um trem.

Agora entendo porque choram os trens. Piuíííííííííííííííí...

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Ressignificação

E eis que o pobre mendigo avistou o homem de terno que vinha em sua direção com um livro debaixo do braço. O velho, assolado pelos anos de vivência nas ruas, ergueu a mão e disse:
- Doutor, você tem um dinheiro ou comida para me dar?
E o homem, que se tratava do pastor de uma igreja protestante, respondeu:
- Tenho algo muito melhor, algo que vai mudar a sua vida.
Retirando o livro debaixo do seu braço, colocou-o na mão do velho proferindo os seguintes dizeres:
- A vós, trago a palavra do Senhor!
E depois disso o pastor continuou a sua caminhada, satisfeito pela sua boa ação, como fizera o Bom Samaritano.
O velho, então abriu o livro em uma das páginas, avistando o título "Gênesis" olhou para o céu e disse:
- Graças a Deus!
Rasgou a página, amassou-a e pôs na boca, mastigando-a cautelosamente.

domingo, 8 de novembro de 2009

Numb

Pesquisas recentes apontam para o crescimento no número de usuários da droga mais devastadora que existe. Os efeitos da droga podem durar uma vida inteira e vão desde alucinações até uma profunda depressão, podendo até mesmo levar ao suicídio no curto prazo.

"A" foi usuário dessa poderosa droga por vários anos e nos relatou como foi difícil largar o vício:
"Pô comecei achando que aquilo ali era o meu melhor refúgio, podia me entorpecer daquilo a hora que eu quisesse e pra mim, aquilo era uma espécie de fortaleza emocional. Chegou um momento que não conseguia mais me livrar e as alucinações eram constantes. Eu não sabia mais o que era vida, cara... Era só aquela porra ali o dia inteiro. Pô eu ficava lá trancado no meu quarto 'desfrutando' toda aquela merda... Já estava ficando paranóico, ria e chorava sozinho e eu te falo mais: só a droga me provocava emoções, foda-se o resto. Chegou um momento em que decidi parar com esse vício, mesmo sabendo que seria muito difícil largá-lo. Comecei tomando a primeira atitude, que foi juntar a porra toda e fazer uma grande fogueira. Aos poucos fui procurando outras coisas e me tornando cada vez menos dependente e vendo que a vida é muito mais do que essa droga, cara... Porra e vou te falar uma coisa importante, acho que grande parte das pessoas possui esse vício e elas não conseguem largá-lo, pois acham impossível. Mas se elas fizerem um esforço, verão que é possível viver com doses moderadas da droga, mas sem depender dela... Pô acho que é isso..."

Não é álcool, cocaína ou crack. A droga chama-se Passado.

sábado, 7 de novembro de 2009

Aspectos da defenestração

Sentia-se leve, era como uma pluma dançando no ar. Uma brisa alisava cautelosamente os seus cabelos e os seus braços eram os remos que conduziam o seu corpo pelo ar. Estava realizado, e as lágrimas rolavam pelo rosto, contornando o nariz e encontrando abrigo no imenso sorriso que estendia-se contra o vento.

Arrebentou a cara no cimento duro.

Naqueles quatro segundos em que o rosto esmigalhado chorava uma dor crônica, descobriu que belos sonhos e vôos altos podem ser extremamente venenosos, especialmente quando combinados com a gravidade.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Sem hipocrisia

- O que você vai ser quando crescer?
- Vou terminar o colégio, depois prestar vestibular para Medicina, Engenharia ou Direito, terminar a faculdade, arrumar um emprego, estabilizar-me, casar-me e ter filhos. Meus filhos terminarão o colégio, prestarão vestibular para Medicina, Engenharia ou Direito, terminarão a faculdade , arrumarão um emprego, se estabilizarão, se casarão e terão meus netos. Descobrirei que tenho algum tipo de câncer, meu corpo degenerará e morrerei.
- ...

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Knockout

Beijou a lona.
Agora só restava levantar e rir da derrota.
Afinal de contas, uma cara calejada sente menos as porradas.

domingo, 1 de novembro de 2009

Filosofia de vida

Banho gelado.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Equivalentes

O banco da praça
A multidão que passa
O idoso se senta O jovem se ausenta
O passado só resta O futuro não presta
Velhice odiosa Juventude ociosa
O corpo cansado O coração cortado
A vida sofrida A morte querida
O velho se apresenta O novo o cumprimenta
Aquela nostalgia Aquela agonia
Antigas memórias Recentes histórias
Boa Conversa
Conversa Boa

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

A resposta de Pai Afonso

Vivia uma crise existencial. Não sabia quem era, porque estava vivendo e qual seria o sentido da vida. A religião já não fazia mais nenhum sentido para ele. Falaram-lhe então do Pai Afonso, um velho sábio que vivia nas montanhas e que poderia ajudá-lo com o vazio que o atormentava.
Seguiu então até as montanhas, chegando até uma rústica cabana encravada entre alguns pinheiros. Bateu na porta e para sua surpresa encontrou o Pai Afonso, um idoso com um cavanhaque grisalho bem aparado, vestindo um bonito terno Armani. Pai Afonso pediu que entrasse e se acomodasse em um dos lugares do pequeno espaço. Escolheu uma poltrona verde ao lado de um sofá de couro, onde sentou-se Pai Afonso.
Foram duas horas descarregando todas as suas angústias, seus questionamentos internos e seus desprazeres quanto ao ato de viver. Perguntou então:
- Por favor Pai Afonso, você pode me ajudar?
Pai Afonso respondeu:
- Certamente.
Sacou uma Magnum 357 do Armani e acertou um tiro no meio da testa do rapaz.
- Chato pra caralho. Filho da Puta.
Guardou a arma, levantou-se do sofá, jogou o corpo para fora da cabana e foi tomar uma xícara de café.